Entrevista com Yokoyama Katsuya Sensei - 2002

 

Mushin: Entrevista de 2002 com o mestre de Shakuhachi Yokoyama Katsuya (1934 – 2010)

 

[O texto abaixo é um artigo do Hougaku Journal de fevereiro de 2002, por Yokoyama Katsuya, um dos grandes tocadores de shakuhachi do século 20. Yokoyama-sensei, na época, estava nos meados de seus 70 anos de idade e muito debilitado por uma série de derrames e já não podia tocar mais. Mesmo assim, ele ficou ativo na sua escola de shakuhachi até quase o fim de sua vida.]

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"Na sua juventude muitos tocadores não tem dinheiro, não tem auto-confiança e não tem fama. Muitas vezes se sentem inseguros sobre seu futuro. Muitos mestres atuais superaram estes períodos, e de acordo com estes artistas, o seu vigésimo sexto ano foi um ponto de transição. Aqui está o relato de como Yokoyama Katsuya superou os desafios que ele enfretou quando tinha 26 anos de idade.

 

"Eu comecei a tocar shakuhachi depois de escutar uma gravação do Watazumi-sensei (sensei significa “mestre” ou “professor em japonês). Eu era um estudante do ginásio e fiquei completamente arrebatado pelo jeito de tocar de Watazumi-sensei, e queria tocar o instrumento e não somente escutá-lo. Meu pai e meu avô, ambos tocavam shakuhachi no estilo kinko, então eu ouvia shakuhachi o dia todo.

 

“Eu semprei respeitei o estilo de tocar de meu pai, mas o som do Watazumi-sensei atingiu o centro do meu ser.

 

“Se esta tradição estava morrendo, como me disse meu pai, eu queria continuar com ela, mesmo que por uma geração, mesmo sabendo que eu talvez conseguisse tirar meu sustento dela ou não.

 

 

Depois da minha graduação no colégio e de trabalhar em uma empresa por 06 anos, eu vim para Tóquio.  Foi um periodo bem difícil para mim. Pela primeira vez eu me dei conta de como deve ter sido duro para meu pai viver de shakuhachi em uma área rural.

 

“Quando eu disse a meu pai que queria ser um tocador de shakuhachi ele me disse que não gostaria que eu sofresse de dois tipos de dificuldades: financeira e artística.

 

“Em Tóquio, eu estudei sob a tutela de dois grandes mestres, Watazumi-sensei e Fukuda Rando-sensei.

 

“Fukuda-sensei me ensinava tocando o piano e não com o shakuhachi. Watazumi-sensei me disse:”- Ensinar alunos empobrece o meu tocar.” Mesmo assim o preço de sua hora/aula era extremamente alto comparado com outros professores. Eu não conseguia entender o sistema de notação usado nas minhas aulas com ele, e chorava de desespero diversas vezes. Ainda assim eu tinha que continuar tocando e usei todo o dinheiro que acumulei durante 06 anos de trabalho para custear minhas aulas.

 

“Minha prática naquela época era focada em ter uma boa afinação. Eu usava um diapasão, pois era a única coisa que eu tinha. Eu também queria aprender a improvisar, então eu tocava junto com qualquer música que estivesse no radio. Estudando desta forma eu aprendi qual tamanho de shakuhachi utilizar para cada música.

 

“Eu não era nada bom em korokoro (tremolos com os dedos) então eu praticava a todo instante até meus dedos travarem de cãibra. Para aprender tamane (vibração da garganta) eu tocava peças como Chidori ou Rokudan usando somente o tamane. Eu segurava meu fôlego durante minha prática pra tentar ficar 3 minutos e 20/30 segundos sem respirar. O ponto central é que você deve tornar-se seu próprio mestre-disciplinador. Você não conseguirá evoluir a não ser que a ponte atrás de você esteja queimando. Você deve criar seus próprios métodos e esforçar-se muito para melhorar.

 

 

"Eu tenho auto-confiança para dizer que ninguém treinou mais duro do que eu para se tornar um tocador melhor. Algumas pessoas reclamam que sua memória não é boa, mas isto é por que elas não estão treinando duro o suficiente. Outros dizem que estão na meia idade e não poderão ser melhores do que uma pessoa que começou a tocar em idade escolar; mas isto também pode ser superado. Assim que você tem pensamentos negativos você cessa sua evolução. Mantenha sua mente focada na espiritualidade e em toda a criação. Continue fazendo o que você acredita ser importante e bom. Isto é precioso.

 

“Ter a habilidade de estudar o seu som em 360°, por todas as direções, em três dimensões, é crucial. Por exemplo, poucas pessoas conseguem dizer imediatamente o que Rokudan está expressando, mas a peça deve estar tentando nos dizer algo. Uma boa performance é aquela em que os meios de se fazer a boa música estão além da imaginação do ouvinte. Se você gosta da maneira de tocar de alguém você irá estudar esta maneira de tocar, o que eventualmente o levará a um certo estado de espírito. Se então você ficar satisfeito com você mesmo você não evoluirá.

 

“Você deve progredir observando a si mesmo em 360°. Se você tocar com dúvida, o público irá sentir a sua dúvida ou confusão de 10 a 20 vezes mais forte que você. Não importa se você tocar mal desde que você toque com todo seu coração.

 

“Certa vez tive uma experiência. Há muito tempo eu fui acampar perto do Monte Fuji. Eu comecei a ouvir uma versão não muito boa de Chidori, mas eu fiquei tocado pelo o que ouvi. Independentemente da performance ser boa ou ruim, eu acredito que o tocador tenha tocado em um estado não-mental (mushin). Eu não uso a expressão não-mental facilmente, pois eu mesmo não conseguia atingir este estado. Eu estava desesperado em atingir a não-mente, por isso o tocar desta pessoa foi incrível para mim. Eu ainda lembro deste momento vividamente.

 

“Eu realmente queria que meu som se tornasse não-individualista. Eu descobri quando eu estava com 25 ou 26 anos que a raiz do honkyoku é ser não-individualista: é assim que se consegue um som rico em qualidades sonoras. A coisa mais importante é o quanto você acumulou de conhecimento e experiência dentro de você. Isto também é importante ao improvisar: o quanto você consegue se ajustar a circunstâncias de mudança constante.”

 

~ Traduzido para o inglês por Saori e Peter Hill (Abril, 2002)

~ Traduzido para o português por Matheus Ferreira (Dezembro, 2012)