O Instrumento

Flauta de bambu japonesa utilizada como prática meditativa em uma antiga tradição do budismo japonês desde o século 7 d.C.

 

Uma Lenda Antiga

O sons do shakuhachi flutuavam pelos cômodos do Templo Kokoku-ji.  O templo, localizado na província de Kishu, estava a muitos dias de caminhada pela Península Kii em direção ao sul até a cidade de Osaka. As intrigas políticas da distante corte Imperial em Kyoto estavam muito além deste templo na área rural, e os assuntos mundanos comerciais de Osaka tinham pouco ou nenhum significado para os monges. Os monges passavam seus dias nesta remota e montanhosa região próxima ao mar, meditando e tocando shakuhachi.

O sacerdote-chefe do Kokoku-ji, Gakushin, era um venerado mestre Zen. A devoção de toda sua vida ao Zen e sua retidão fizeram dele um renomado mestre de meditação conhecido por todo o país. Discípulos de todo o Japão vinham em rebanhos para estudar com ele, e o templo ficava em pleno alvoroço por causa das práticas diárias dos jovens monges sob sua tutela.

Este é o final do século treze, e o Zen tinha chegado ao seu auge no Japão. Ricos e poderosos senhores da guerra construíram templos requintados por todo o país, e a elite social japonesa enviava seus filhos para estudar o Zen nos mais famosos centros de aprendizagem Budista da China.

Antes de tornar-se o abade-chefe do templo Kokoku-ji, Gakushin também estudou o Zen na China, no Templo H?guòsó em Sh? Zh?, próximo à costa leste. Lá, ele fez amizade com um jovem acólito, Ch? San, originário das longínquas regiões da China ocidental. Ch? San sempre carregava com ele uma intrigante flauta de bambu que ele chamava de shakuhachi, que estava na sua família por muitas gerações.

Cho San, sempre diligente na sua busca por iluminação, freqüentemente tocava o shakuhachi como parte de sua prática de meditação. Sua peça musical favorita era Kyotaku, que foi passada de geração em geração através de um ancestral seu chamado Cho Haku, que viveu por volta do século 9 d.C. Cho Haku tinha dominado a arte do shakuhachi “sino vazio”. Sendo o shakuhachi uma flauta, obviamente ele nunca poderia soar como um sino, mas a peça Kyotaku, quando tocada com a correta disposição mental, evocava o som de um sino.

Cho Haku compôs esta peça quando estava sob a tutela de um famoso e excêntrico sacerdote Zen Chinês chamado Fuke. Fuke fazia muitas coisas estranhas e surpreendentes para chamar a atenção de seus discípulos, uma delas era caminhar balançando um sino ao mesmo tempo em que pronunciava sentenças enigmáticas.

Cho Haku, esperando decifrar os significados profundos das palavras proferidas pelo seu mestre, implorou a Fuke que o ensinasse os segredos do balançar do sino, mas Fuke recusou firmemente. Sendo assim, tudo que Cho Haku podia fazer era talhar uma flauta em bambu para tentar imitar os sons do sino d seu mestre. Ele chamou-a de Kyotaku (que quer dizer literalmente “aquilo que não é um sino”).

Cho San apreciava contar a Gakushin histórias sobre seu estranho ancestral, e tinha orgulho de sua maestria com a flauta, tendo estudado intensamente para dominar seus sons. Durante as sessões de meditação, Cho San tocava shakuhachi para Gakushin, que se enamorou completamente por seus sons.

“É tão primoroso, maravilhoso, nada parecido com qualquer coisa que já ouvi na vida!” exclamou o surpreso Gakushin. “Você precisa ensinar-me como tocar para eu poder levar esta flauta para o Japão”.

Cho San sentiu-se obrigado a ensiná-lo. Gakushin revelou-se um ótimo aprendiz e rapidamente dominou a flauta. Ele retornou ao Japão no sexto ano do reino do Imperador Gofukakusa (1254) e viveu por muitos anos nos templos de Koyasan – um grande centro Budista perto de Osaka – viajando freqüentemente para a capital. Depois de algum tempo, Gakushin isolou-se no remoto templo Kokoku-ji, onde se dedicou a ensinar o Zen e a tocar shakuhachi.

Nesta altura de sua vida, o shakuhachi já havia se tornado uma ferramenta central nos seus ensinamentos. As palavras sempre atrapalhavam quando ele queria explicar a essência da iluminação Zen, mas os timbres do shakuhachi transcendiam as palavras e falavam direto ao coração.

Os anos passaram e Gakushin envelheceu. Ele começou a pensar sobre encontrar um sucessor para continuar a tradição do shakuhachi. Havia, dentre seus discípulos, um jovem monge muito esforçado, chamado Kichiku, que demonstrava grande proficiência na meditação e tinha grande respeito por seu mestre. Gakushin sentia apreço por Kichiku e, um dia, chamou-o à sua sala de estudos. Ele disse a Kichiku que gostaria de ensiná-lo a peça Kyotaku e iniciá-lo nos segredos do shakuhachi.

Kichiku ficou cheio de alegria e diligentemente estudou o instrumento, deleitando-se nele durante suas práticas diárias. Embora passasse meses aperfeiçoando suas habilidades, ele começou a sentir-se sufocado pela segura e serena atmosfera do templo. Ele percebeu que deveria ir para o mundano encontrar a verdadeira iluminação. Kichiku decidiu que deveria deixar o templo e seu mestre para embarcar em uma peregrinação.

Gakushin, embora entristecido por saber que seu discípulo favorito estava indo embora, compreendeu e concedeu suas bênçãos para o jovem monge. Apenas com um casaco de palha para protegê-lo da chuva e do frio, uma tigela para mendigar e seu shakuhachi, Kichiku saiu para sua jornada itinerante.

Ele caminhou por montanhas e vilas, tocando para aqueles que partiram deste mundo, nas ruas e nos portões das casas de família e de comércio. Ele tocava para os animais na floresta e nas montanhas para os riachos e imponentes blocos de pedra. Onde não havia templo ou fazenda para abrigar-se, ele dormia ao ar livre, na mata, acariciado pela grama selvagem, em companhia dos animais. Ele tocava quando estava feliz, ele tocava quando se sentia solitário e amedrontado, ele tocava quando estava faminto e ele tocava para agradecer os camponeses por compartilhar sua escassa comida. Para Kichiku, viajar com o shakuhachi era uma jornada através dos sons. Ele ouvia os sons da floresta e escutava vozes durante seus sonhos.

Kichiku tinha ouvido falar de um famoso santuário no topo do Monte Asagatake, na província de Sei-Shu, muito ao longe, em direção ao leste do templo Kokoku-ji. Não tendo nenhum destino em particular em mente e sendo o santuário um lugar de grande poder espiritual, ele decidiu ir para lá para meditar.

Ele caminhou por muitos dias e escalou a montanha. Chegando ao cume já ao anoitecer, ele confinou-se no santuário e iniciou suas práticas devocionais. Ele sentou-se perfeitamente ereto e meditou. À medida que a noite caia, ele lutava contra o sono e mantinha sua concentração. Chegando a alvorada, entretanto, sua concentração oscilava e ele começou a ter visões.

De repente, Kichiku encontrou-se numa jangada sozinho no mar. Uma lua cheia e brilhante iluminava as águas calmas que o circundavam, e Kichiku perdeu-se nas imagens fantasiosas do seu reflexo luminoso. Enquanto ele olhava fixamente para esta luz suave, uma espessa névoa surgiu e obscureceu o reflexo da lua. A lua logo desapareceu. O mar ficou escuro e Kichiku não enxergava mais nada ao seu redor. Ele sentiu-se desesperado por um momento, mas então extraordinários timbres de flauta infiltraram-se através da neblina. Os timbres, embora parecessem tristes, estavam além de qualquer descrição. Eles vieram do nada e ao mesmo de todos os lugares. Eles o deixaram relaxado e confiante. A névoa, então, retornou, agora trazendo o silêncio. Os timbres da flauta reapareceram, desta vez com mais riqueza de detalhes e ainda mais lúgubres. Kichiku nunca antes havia escutado timbres tão perfeitos.

Kichiku despertou de sua quimera para descobrir que a jangada, a lua e o mar tinham sido apenas um sonho, mesmo assim os sons da flauta permaneciam em seus ouvidos. Inspirado, ele pôs-se a tentar imitá-los com seu shakuhachi.

Encantado, ele retornou ao Templo Kokoku-ji e foi até seu mestre. Gakushin estava muito velho e já no seu leito de morte, mal conseguindo falar. Kichiku tocou sua nova peça para o debilitado mestre e Gakushin sorriu, dizendo que esta peça era verdadeiramente um presente de Buda. O mestre reconheceu que Kichiku estava apto a assumir seu lugar no templo. Kichiku então pediu a seu mestre para nomear a peça. Gakushin, com grande dificuldade, sussurrou suas palavras finais aos ouvidos de Kichiku: “Flauta no mar enevoado” (mukaiji).


Extraído e adaptado de: The Single Tone  páginas: 34, 35 e 36. Direitos de reprodução cedidos por Christopher Yohmei Blasdel.

O Instrumento