O Suizen e os Monges Komuso

 

Existem diversas lendas que descrevem a origem do shakuhachi. Do ponto de vista histórico, segundo o etnomusicologista japonês Kamisango Yuko[1], o shakuhachi originou-se na China e foi introduzido no Japão no final do século 7 d.C. Durante sua história, o shakuhachi passou por diferentes formatos e nomes: Gagaku Shakuhachi, Tempuku, Hitoyogiri Shakuhachi, Fuke Shakuhachi e Shakuhachi experimental do século 20.

Kamisango Yuko ressalta que, só no século 16 d.C., que o shakuhachi chegou às mãos de um grupo de monges mendicantes chamado originalmente de komoso, que quer dizer “monges de esteira de palha”, o que sugere um tom de mendicância e pobreza. Kamisango também ressalta que estes monges visitavam as casas dos ricos e pobres tocando seu shakuhachi como uma forma de mendigar por sua sobrevivência, e que também estavam envolvidos com disciplinas budistas.

Já no período Edo (1603 - 1868), estes mesmos monges komoso começaram a ser chamados de komuso, que quer dizer “monges do vazio e do nada” ou “sacerdotes do vazio”, sendo o “vazio” um termo recorrente no Budismo para se designar o estado do Eu verdadeiro ou Alma.

Os komuso organizaram-se como um ramo da escola de Zen Budismo Rinzai chamado Fuke (nome do monge que inspirou a criação do shakuhachi na China antiga), e tinham uma rede de templos por todo o Japão. Cada templo tinha seu repertório de honkyoku (peças musicais de origem meditativa para o shakuhachi), que era ensinado aos “sacerdotes do vazio”.

Estes monges mendicantes tinham como propósito central de vida a prática do suizen (soprar zen). Tocando o repertório do honkyoku, eles almejavam um estado meditativo específico: o ichi´on jobutsu (atingir a iluminação em um único tom).

Os “sacerdotes do vazio” costumavam peregrinar pelo Japão, pois tinham acesso irrestrito por todo país, um raro privilégio dado pelo próprio imperador. Eles também usavam um chapéu de palha chamado tengai, que ocultava totalmente sua identidade.

Kamisango Yuko atesta que estas condições eram muito atrativas para samurais sem mestre (ronin), que entraram na seita Fuke para trabalhar para o governo como espiões. Gradativamente, a seita Fuke distorceu seu propósito espiritual por se intrometer em assuntos políticos e mundanos, e teve seu fim juntamente com o período Edo, quando se iniciou a Restauração Meiji em 1868.

Um dos aspectos mais fascinantes sobre a história do shakuhachi para mim é o fato de ter existido uma seita do Zen Budismo, com aproximadamente duzentos templos no Japão, totalmente dedicada ao desenvolvimento do ser humano através do som e que desapareceu por completo como instituição formal, mas que suas raízes permanecem vivas até hoje na cultura japonesa através da música.

 

Texto: escrito por Matheus Ferreira - Excerto do livro Sacerdotes do Vazio

 


[1]  The Shakuhachi A Manual for Learning, Christopher Yohmei Blasdel e Kamisango Yuko

O Suizen e os Monges Komuso